quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ASSIM É SE LHE PARECE



Mundo esquisito, esse virtual. Traz para bem perto o que está longe, torna verdadeiro o que sequer existe, derruba conceitos e já não sabemos o que podemos chamar de palpável nessa franca revolução do "empirismo". É possível quebrar as barreiras da realidade e tornar "uno" tantos mundos possam caber no infinito. Este, um conceito ainda intacto, preservado.
Mundo maravilhoso, esse virtual. Chega a ser onírico, caminho ao olimpo, quiçá o próprio lugar dos deuses e dos demônios também, afinal tudo parece um.
Parece ou é?
E que diferença isso pode fazer? Quem poderá dizer que algo apenas parece se, diante dos nossos sentidos, se mostra irrefutável? "Assim é se lhe parece", disse Pirandello. Minha ignorância não me permite afirmações sobre a abrangência metafísica da colocação do grande autor, ma me aproprio, aqui, de suas palavras para caracterizar o conceito de ser que o mundo virtual ou digital acaba por construir.
Mundo perigoso, esse virtual. Imagine que o Central Park pode tornar-se mais familiar do que a pracinha do final da sua rua e que é possivel conhecer tudo sobre as linhas dos metrô de Londres e não saber qual linha de ônibus serve seu bairro. Podemos ir ao Louvre, ver o por do sol no Egito, estremecer com uma onda no Havaí e desconhecer como a Lua se mostra no céu a nossa cidade. Você pode não conhecer o seu visinho e ter, como melhor amigo, alguém que mora na Itália e jamais o abraçou. Pode também namorar uma pessoa da Dinamarca, sem nunca tê-la beijado, afinal tudo é uma questão de tempo, não demora e logo inventam o beijo virtual.
Sei lá, alguma coisa aí não me agrada. Aquilo que aproxima o que está longe pode, ao mesmo tempo, exilar o que está tão próximo! Tão assustador quanto fascinante, atraente e mágico, o futuro agora, avanço do homem que mostra o melhor de sua inteligência.
Mundo surrealista, esse virtual. Abre portas para tantas portas que abrem para outras que podem dar direto para a própria esquizofrenia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OS MENINOS SÃO BONS


Fiquei absolutamente fascinado ao ver jovens entusiasmados e envolvidos, em um trabalho intelectual de alto nível, fazendo uso de conhecimentos refinados, trocando informações, interagindo, ora de forma séria, quase profissional, ora de forma lúdica, quase infantil. Vi que faziam programações sofisticadas, um teste ali, outro acolá e, no final, robôs cumpriam, obedientemente, as tarefas pré-estabelecidas, com rigor e precisão. Estas foram as minhas principais impressões da experiência de ter participado da III Olimpíada Brasileira de Robótica, realizada em Brasília de 21 a 23 de setembro.
Via de regra, nos referimos aos jovens fazendo queixas a cerca de sua rebeldia, desinteresse, falta de perspectiva, agressividade, alienação, etc, etc, etc. Parece sempre tão difícil lidar com adolescentes e a idéia de que não querem nada com nada, vai sendo disseminada nos meios educacionais e familiares que, diante do impasse, saímos a procurar culpados. A mídia, a falta de tempo dos pais, a internet, o celular, o shopping, os avós, o efeito estufa, globalização, Xuxa, drogas... Ufa! Tanta coisa, tanta desculpa e acabamos por projetar responsabilidades sem, contudo, fazermos a famosa e tão necessária autocrítica. Perdemos, completamente, a nossa memória, esquecemos nossa adolescência e discursamos como se fizéssemos parte da geração dos bem formados, dos sem problemas, dos super equilibrados, hiper responsáveis, ultra competentes...
Ora, mega babacas, isto sim é o que somos. Temos que nos perguntar, antes de tudo, qual é o projeto que temos para os nossos jovens, que legado pretendemos deixar e de que forma nós, pais e educadores, estamos construindo esse processo.
A vivência da OBR mostrou-me claramente que quando sinalizamos possibilidades, quando oferecemos ferramentas, apontamos horizontes e oportunizamos caminhos, os jovens os abraçam, criam metas, crescem e constroem.
Já disse Gilberto Gil: os meninos são todos sãos, os pecados são todos meus...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CLONECIDADES



No início deste mês estive em Fortaleza, levando meus alunos dentro de um projeto da escola chamado TURECO. Em linhas gerais, tentamos fazer um turismo pedagógico para a observação do espaço geográfico, da cultura local, história e, é claro, bastante lazer.
Antes de irmos, perguntaram-me se eu já conhecia a cidade, ao que respondi que sim. Que mentira! Fui a Fortaleza há cerca de vinte anos e aquela que visitei já não existe mais. Há uma nova cidade, um novo ritmo e novo clima também. Falésias desapareceram, palhoças sumiram, há mais bugres do que jangadas, menos pescadores, as rendeiras já não ensinam seu ofício às suas filhas e o paredão chic dos edifícios mudaram até o rumo dos ventos.
Não penso que as coisas devam permanecer intocadas, tampouco tenho a visão de um preservacionismo puro, inflexível, creio que o mundo deva ser dinâmico, até porque esta é a condição sine qua non do desenvolvimento, no entanto, não posso concordar que tudo tenha que ser igual. Quando assisto ao “desenvolvimento” das cidades, vejo que há uma tendência para uma certa direção, como se houvesse um único modelo possível. São Paulo e Rio de Janeiro já estão até parecidas, Belo Horizonte e Porto Alegre vão no mesmo caminho e nem a planejada Curitiba consegue ser diferente. Brasília não é mais a de Lúcio Costa e Niemeyer, todas, em seus aspectos, em suas aparências, me dão a sensação de déjà vu.
O detalhe, a coisa essencial, parecem estar encolhidos frente aos avanços, sejam eles tecnológicos,seja do capital ou do raio que o parta e, aos poucos, comprometemos nossa identidade, como se todos pudéssemos ter a mesma marca digital, como se fôssemos simplesmente digitais. As igualdades devem prevalecer no campo da justiça, das oportunidades, da atenção e do cuidado do poder, mas as diversidades devem ser mantidas e o caminho traçado, por cada um, segundo suas próprias experiências. Talvez as verdadeiras cidades sobrevivam ainda em seus becos, ruelas, antros & cantos, para parodiar meu amigo Lobo de São Paulo, pois certas marcas são encobertas, jamais apagadas.
A propósito, Fortaleza continua linda!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

INDÚSTRIA CULTURAL


Cultural às vezes, indústria sempre, contaminando as massas e transformando tudo em uma imensa tábua rasa. O sucesso a qualquer preço.


Esta semana, o "príncipe" dessa indústria se foi, encerrando sua passagem de forma patética, tanto quanto fora sua vida na maior parte dela. Foram tantos Michaels que sequer sabemos qual deles morreu. Talvez vários vieram a morrer durante esse tempo todo, um após outro, talvez nem tenham nascido de verdade e foram frutos da imaginação da gente carente de ídolos, ícones, sonhos... A indústria cultural tem sempre uma anestesia, está sempre pronta para transformar o bizarro em divino, a levar ao céu e ao inferno, aproveitando-se da frágil capacidade de raciocínio das massas.

Não se trata aqui de negar a genialidade do artista ou de querer reduzi-lo a um boneco de marionete, tampouco vejo ou sinto a necessidade de qualquer tipo de exaltação, nem estou certo de que haja uma obra de fato, capaz de romper o tempo e influenciar gerações, também não sei se chamou mais atenção por seu trabalho ou pelos escândalos que se sucediam. Estranha figura esse Michael!

Enfim, aos cinquenta anos, morreu Michael Jackson engasgado em sua solidão. No entanto, parece que nada mudou, nenhum vazio, nenhuma ausência, apenas o mesmo farto banquete para a abusada e lambuzada mídia, fiel escudeira desta indústria mal cheirosa.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A GAIOLA



Uma estranha forma

de preservação da fauna.





ECOTOQUE

É COMO TOCAR SEMPRE A MESMA TECLA.

CERTAS COISAS NUNCA MUDAM.

OU MUDAMOS AS COISAS SEMPRE DA MESMA FORMA: ERRADA.

QUANDO APRENDEREMOS A OCUPAR OS ESPAÇOS DE MANEIRA EQUILIBRADA E INTELIGENTE?






domingo, 17 de maio de 2009

FILAS: ORDEM E CORRUPÇÃO

Esta semana pude presenciar na UFPB – Universidade Federal da Paraíba, a fila de estudantes junto a AETC, para colar crédito em seus cartões de passe para os ônibus. Juro que fiquei impressionado com a naturalidade com que estes jovens desrespeitam a ordem da fila. Exatamente dentro da universidade, ambiente no qual depositamos nossas esperanças de crescimento e formação de um pensamento novo, libertador e justo. Fiquei a observar por um tempo a situação como um todo, sob o sol do meio dia, e a identificar e refletir sobre esta tal espécie, o FURADOR DE FILAS.

Vejo na cara dos furadores de fila o brilho sarcástico do frágil sentimento de poder. Seja qual for o tipo de fila, banco, restaurante, banheiro, teatro, show, trânsito ou transplante. Este último, ainda o mais grave, pois a tratar de vida e de morte pode estabelecer que os eventualmente menos influentes possam partir antes dos outros e, assim, nos antecipamos a Deus fazendo-lhe a triagem.

Pode parecer um detalhe, muitas vezes inocente, mas revela toda a nossa falta de educação, respeito e tolerância, bem como nossa incrível capacidade de corrupção. Isso mesmo CORRUPÇÃO! Em qualquer instância, significa transgredir a ordem em benefício próprio.

Há vários tipos de furões. Tem o famoso João sem braço, que chega como quem não quer nada, olha para os lados como se estivesse distraído e, quando menos se espera, lá está o cara de pau enfiado no início da fila. Existe também o tipo Marajá que paga a alguém para ficar em seu lugar na fila e só aparece quando chega sua vez. Acho que os mais comuns são aqueles que chegam sorrindo, encontram um velho conhecido e resolvem matar as saudades ali mesmo e, enquanto relembram os velhos tempos e fazem perguntas sobre quem se casou, quem nasceu, quem viajou e coisas assim, a fila vai caminhando e, de repente, quase sem querer, passam à frente de todo mundo. Poderia chamar este tipo de De volta para o passado. Não posso esquecer do tipo Office boy panaca. É aquele tipo que já está na fila para pagar uma conta, por exemplo, e vai pegando outras dos “amigos” que lhe encontram e cria uma pilha enorme de documentos e cheques, dinheiro e já nem sabe onde está sua própria conta. Nem percebe que o minuto que gastaria com seu próprio atendimento acaba se transformando em dez, enquanto os outros o aguardam no regozijo de suas “vantagens”. Sem falar nos super furões que são aqueles que, de tão poderosos, sequer a fila conhecem e passam a frente e por cima de todos.

Eu fico indignado. Sabiam que algumas crianças só ganham o colo da mãe em fila de supermercado? Só para fazer uso do caixa exclusivo! Velhinhas cujo único passeio é fazer a feira do mês, com o mesmo e infeliz objetivo, o uso do caixa para idosos. Aliás, alguns são até contratados por empresas, justamente para prestar este “serviço”.

As filas são o espelho, ou o retrato, de uma sociedade de valores pequenos, que não conhece o respeito e que pelo pouco uso dos seus direitos também não sabe praticar seus deveres. Estamos sempre aos trancos e barrancos, na base do salve-se quem puder e, por conta disso, nossa fila nunca anda, apenas cresce, no terreno do subdesenvolvimento.

domingo, 3 de maio de 2009

ONDA ROXA


Todo corinthiano é um corinthiano roxo. Quero dizer que não conheço nenhum que seja só um pouco corinthiano, nem aquele que torça por dois times, sequer contra um outro. Mas há quem possa me dizer que todo corinthiano é contra o...Bem, aquela dissidência que se veste de verde... Mas para tal afirmação, seria preciso, primeiro, reconhecê-los como time, como não o fazemos, continuo podendo afirmar que corinthianos sequer são contra qualquer time que seja, corinthianos são corinthianos.


Roxos fanáticos, roxos de raiva, roxos de felicidade! A gente sofre mas não desiste nem se encolhe, pelo contrário, a fiel grita mais alto, empurra, bota pra voar. Até argentino vira ídolo, se deixar, o ídolo acaba virando brasileiro, pois ninguém resiste ao calor da torcida. Já teve até carioca que virou paulista. Não há como deixar de ser tocado por esta magia.


Aos trancos e barrancos, Dentinhos, Cristians, Chicões, Andrés, Felipes guardiões,Jorge, São Jorge, somos todos Manos, somos todos em campo, somos mesmo um fenômeno. Sim, temos o Fenômeno a dar lições de futebol e superação. Como todos, também gostamos de ser campeões, mais do que isso, adoramos ser corinthianos, uma coisa que só quem é compreende. Rimos de quem não entende e é pouco contente porque só consegue a alegria no momento de glória, enquanto que a gente já atingiu a glória apenas com aquilo que sente.


E fomos nós para a segundona, afinal é como estava escrito na camisa de um torcedor: Sou corinthiano na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e no domingo. Nem deu tempo de rolar a primeira lágrima e já estamos de volta. E que volta! Campeões invictos! Corinthianos convictos!


Saudações corinthianas

sábado, 2 de maio de 2009

ROLA EM JAMPA


Muitos dizem que em João Pessoa não acontece nada e que os pessoenses não tem vida cultural. Será?

Claro que não é bem assim! Tem muita coisa rolando na cidade, eventos de altíssimo nível como este que iníciou ontem, primeiro de maio: o 4º CINEPORT.

É o maior evento do mundo do cinema de língua portuguesa que acontece pela segunda vez em João Pessoa, confirmando que nossa cidade tem sim um enorme talento cultural.

Além das mostras das mais de cem produções de Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Moçambique (a quem esta edição homenageia) o visitante tem a oportunidade de ver exposições, conhecer a culinária destes países e assistir a apresentações de músicos de primeiríssima linha.

O ingresso custa apenas R$ 2,00 e o Festival acontece até o dia 10 de maio na Usina Cultural Energisa. Confira a programação no site do evento:

DICA PARA A ESTANTE


É bem verdade que um livro cumpre melhor seus objetivos quando circula de mão em mão, democratizando seu acesso e promovendo cada vez mais viagens. Não é a toa que o movimento do book crossing vem ganhando espaço mundo a fora, estimulando leitores e dando a indicação que, apesar de todas as novas mídias, o livro está vivo e cada vez mais integrado à vida das pessoas. Mas acho também que todos deveriam ter sua própria estante com aqueles livros mais marcantes, livros que, vez ou outra, gostamos de reler ou folhar, porque de algum modo nos remete a lembranças, sonhos e passam a fazer parte da vida da gente. Há sempre uma história inesquecível, um poema que tocou o coração e a alma, um toque mesmo sutil que tenha direcionado a vida do leitor.
Minha estante é composta de vários livros assim, que cumpriram uma missão em minha vida e tornaram-se importantes. Um deles é FELIZ ANO VELHO, do paulistano e corintiano roxo MARCELO RUBENS PAIVA. O livro, que teve sua primeira edição em 1982, é um romance autobiográfico e mereceu o Jaboti, prêmio maior da literatura brasileira. Com uma narrativa contundente e direta, relata sua experiência após ter fraturado uma vértebra ao mergulhar em um lago, durante uma farra de estudantes, que o deixou tetraplégico, dias antes do natal de 1979. Integrante de uma banda chamada Os Bostas e estudante de jornalismo da UNICAMP, teve que redirecionar radicalmente sua vida sem, contudo, parar de sonhar ou perder o humor. Como se trata de uma linguagem aberta, não será difícil a qualquer jovem identificar-se com a obra, verificando conflitos, dúvidas e desejos tão comuns. Este, porém, não foi o único tombo que a vida proporcionou ao autor. Aos onze anos teve seu pai, Rubens Paiva, então deputado federal, seqüestrado e preso pela ditadura militar, torturado e morto sem que seu paradeiro fosse informado pelo governo.
Faço a indicação, sobretudo porque ao lembrarmos os 45 anos de instalação da ditadura no Brasil, a leitura traz à tona o que foram aqueles anos de chumbo, não sob a ótica do historiador distante, mas pelo testemunho real de quem viveu e foi vítima do abuso de poder, da injustiça, da força cruel de militares inescrupulosos a ceifar liberdades.
O país mudou, democratizou-se, o exército também mudou, está mais voltado para o social, mas ainda permanece um ou outro general tomado pela síndrome ruidosa do poder pelo poder, a esbravejar nos quartéis, a ocultar arquivos e disparar farpas pela imprensa. A lembrança nos deixa atentos contra retrocessos e com o olhar adiante, na garantia de nossa liberdade e conquistas democráticas. Se houver latidos, o importante é que não nos deixemos morder.